Um convite à reflexão sobre a saúde mental feminina

Por Adriana Vasconcelos
Congresso em Foco
Um convite à reflexão sobre a saúde mental feminina

Muitas mulheres tentam abraçar o mundo sozinhas, como se isso fosse possível — fruto de uma realidade cada dia mais complexa que a maioria delas vive. Conquistaram o posto de chefe de família em 52% dos lares brasileiros, de acordo com dados do IBGE, mas não abandonaram as antigas atribuições de dona de casa, mãe, esposa, filha dedicada e cuidadora de filhos, doentes e pais idosos. São muitos pratinhos a serem equilibrados, que foram incorporados silenciosamente na rotina feminina e acabaram naturalizados dentro da sociedade.

Some-se a isso o assustador quadro de violência a que as brasileiras de todo o país estão sujeitas, independentemente da sua condição social, idade, cor, formação ou mesmo preferência ideológica — algo que hoje costuma pesar em determinadas circunstâncias. O número recorde de feminicídios a cada novo ano não deixa dúvidas e expõe o retrato mais cruel do ódio, do sentimento de posse e desprezo de determinados homens em relação às mulheres. Mas isso, infelizmente, está longe de ser a única ameaça à população feminina.

Para alcançar postos de comando em sua trajetória profissional, elas geralmente se preparam mais, muitas ainda recebem menos do que homens que exercem a mesma função e sofrem maior pressão em relação ao desempenho. Algo sutil, mas real. Dentro de suas próprias casas, o local menos seguro para um grande número de mulheres, viram presas fáceis e acabam submetidas a um amplo cardápio de diferentes tipos de violência: como psicológica, patrimonial, vicária e sexual, entre outras.

Um quadro que merece atenção e exige um cuidado especial em relação à saúde mental. Os pedidos de socorro são muitas vezes abafados, simplesmente por elas não terem com quem dividir as múltiplas tarefas do seu dia a dia, que envolvem os principais afetos de sua vida, ou são confundidos de forma preconceituosa com "irritações ou chiliques" de quem está de "chico", como disparou recentemente o jogador Neymar ao criticar um juiz de futebol.

Confesso que estou exatamente nesta fase da vida. Uma carreira consolidada de quase 40 anos de jornalismo, ainda na ativa, enfrentando os desafios de uma das profissões que mais se transformou diante da mudança do mundo analógico para o da inteligência artificial. O filho criado, os netinhos aquecendo o coração e uma mãe enfrentando um processo progressivo de demência desde que meu pai faleceu há quase três anos. Aliás, desde 2019, tive de assumir sozinha a gestão da vida deles.

Cuidar da saúde mental passou a ser uma necessidade para muitas mulheres, embora muitas demorem para perceber isso. Eu mesma relutei em aceitar. Desde cedo decidi ir à luta para me livrar do controle de um pai machista e uma mãe que aprendera o ensinamento da avó: "sofra com paciência, que você sofre menos". Mas tem horas que até mesmo as que se acham mais fortes precisam de ajuda e suporte.

A experiência e a maturidade nos fazem enxergar que pedir ajuda nem sempre é sinal de fraqueza; pode ser de sabedoria. É libertador descobrir que não precisamos dar conta de tudo o tempo todo. Por isso eu lhe pergunto: como anda a sua saúde mental? Acredito que essa é uma reflexão necessária que nunca devemos perder de vista, sob pena de sucumbirmos a uma rotina pesada e de pouco reconhecimento, que suga nossa energia e a alegria de viver. Afinal de contas, quem acha que pode levar o mundo nas costas precisa saber cuidar de si mesma também.